domingo, 15 de março de 2015

Pior do que um mentiroso é um incompetente a mentir



– És parvo. Devias ter mentido.

– Não sou capaz de mentir.

– Não interessa se és capaz ou não. Devias ter mentido.

– Mas como é que não interessa? Se eu não sei mentir, não vou fingir. Não consigo, mesmo.

– Mas não consegues porque vai contra os teus prin­cípios? Porque és um tipo muito correto e justo e hon­rado e transparente e rebeubéu pardais ao ninho? Ou não consegues porque não sabes? É que são coisas di­ferentes.

– Não consigo porque sou mau nisso. Sou logo caçado. Também não gosto muito, é verdade. Mas não sou um moralista nem quero medalhas de bom rapaz. O proble­ma é que me topam logo. E meto os pés pelas mãos e fa­ço figura de parvo.

– Pois, isso é um problema. Um tipo que não sabe mentir é um problema. As mulheres não gostam disso.

Se é para enganar, perguntem à vossa mulher como é que se faz



Na sequência do naufrágio do navio de cruzei­ro, todos os passageiros e tripulantes morreram. Todos, menos dois. Agarrados a alguns destroços, deram à costa numa ilha deserta. Um homem e uma mulher. Ele, por­tuguês, de Macedo de Cavaleiros. Chamava-se Carlos. Carlos Antunes. Ela, alemã, natural de Rheinberg, per­to de Düsseldorf. Chamava-se Claudia. Claudia Schiffer.

Procuraram refúgio, calor, alimento, forma de se manter vivos. E, confinados a um pedaço de terra cerca­do de água, aliaram-se na luta pela sobrevivência. Uma coisa leva à outra, tornaram-se amantes. Sem concor­rência e sem muito para fazer além de pescar, passavam o dia enrolados. De todo o azar que tinha tido – o homem quase morria afogado –, o bom do Carlos sentia que lhe tinha saído a sorte grande: sozinho numa ilha deser­ta com uma ex-top model só para ele. Quando quisesse. Na areia, na cabana, dentro de água, onde calhasse.

quarta-feira, 11 de março de 2015

Vocês nunca se tinham visto antes, pois não?


Já alguma vez estiveram cara a cara com alguém que conheceram através de uma rede social e com quem passaram dias a trocar mensagens? Já alguma vez se vi­ram perante esse estranho impasse, misturado com riso nervoso, que é conhecer uma pessoa a quem já falaram de vocês? Já alguma vez respiraram fundo e pensaram «O que é que eu estou aqui a fazer?», enquanto agarram o puxador da porta do bar onde combinaram um primeiro encontro? Descansem, não são casos únicos. A esta hora, enquanto estão a ler isto, muita gente está provavelmen­te num first date com um desconhecido que até já conhe­ce algumas coisas – pelo menos a fotografia de perfil.

quarta-feira, 4 de março de 2015

Pai, mais uma ficha, mais uma voltinha


Não sei qual é a memória mais antiga do meu pai. Cronologicamente falando. As lembranças que tenho dele de quando eu era criança atropelam-se de forma mais ou menos caótica na minha cabeça. Momentos diferentes, em espaços diferentes, não consigo datá-los de forma ordenada. Alguns estarão separados por anos, outros, por dias. Em todos eles, estávamos apenas os dois.

Lembro-me de ele me segurar a bicicleta cor de vinho que se desdobrava e entrava no porta-bagagens do velho Ford Escort azul-bebé, quando me ensinou a pedalar junto à casa que ele próprio construiu, com a ajuda de pedreiros que contratava ao fim de semana. Lembro-me de passear com ele junto ao balneário das Termas de Monfortinho e lhe perguntar como é que nasciam os bebés – e de ele me dizer para ir falar com a minha mãe. Lembro-me de ele chegar a casa, vindo do trabalho no Porto de Lisboa, dar a volta da praxe ao carro estacionado na rua, garantindo que as portas estavam fechadas e que não havia novos riscos, e de me dar um beijo, acompanhado de um «Então e que tal, rapaz?».

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Não cozinhas, não limpas o pó, não sabes usar um berbequim. Para que serves tu?


¬ E uma camisa, és capaz de passar?

¬ Acho que sim. Não há de ser muito difícil.

¬ Por acaso é. É das coisas mais difíceis de passar a fer­ro, uma camisa. Mas pronto, achas que és capaz?

¬ Se é das coisas mais difíceis, por que é que me pedes para passar precisamente a camisa?

¬ Eu não te estou a pedir. Estou a perguntar se és ca­paz. Calculo que não, mas pergunto à mesma.

¬ Isto parece conversa de malucos.

¬ Eu é que estou a dar em maluca ao ver a quantidade de coisas que tu não sabes fazer. Comecei pelas simples. Já vi que não sabes. Pode ser que sejas bom nas complicadas.

¬ Já te disse que não sei passar a ferro.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Verdades universais por volta dos 40 anos


PASSAMOS A SAIR MUITO MENOS. E não é só porque temos filhos. É porque temos menos pachorra. As noites de sábado deixam de ter programa obrigatório e nós dei­xamos de nos chatear por isso. As melhores noites de co­pos passam a ser as que não estavam programadas durar até às tantas e, de vez em quando, lá sentimos falta dis­so – e dos jantares com amigos por tudo e por nada. Mas do que temos mesmo saudades é de ir ao cinema com re­gularidade – e pensamos nisto todos os anos, quando se começa a falar dos Óscares e percebemos a quantidade de filmes que não vimos no ano anterior.

POR FALAR EM COPOS… há pelo menos dez anos que sabemos que as ressacas são agora mais fortes do que eram quando andávamos na faculdade. Mas nem por is­so deixámos de beber. Agora, porém, já pensamos duas vezes antes de pedir outro gin tónico – sobretudo porque sabemos que ao sábado ou ao domingo de manhã, aque­la dor de cabeça vai ser mais difícil de aguentar com os filhos a correr pela casa.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Querem testar os limites do vosso casamento? Façam um filho. Melhor, façam dois



Tampa da sanita para cima? Pratos sujos durante horas na bancada da cozinha? Gavetas desarrumadas? Roupa e sapatos espalhados pela casa? O comando da te­levisão que nunca aparece? Caixas com restos de comi­da no frigorífico até ganhar bolor? Ou então o contrário de tudo isto: os tupperwares organizados por tamanho e cor; os cabides todos iguais no roupeiro, virados para o mesmo lado; os iogurtes separados por sabor e prazo de validade; o stock de champô armazenado para um even­tual ataque nuclear; os papéis enfiados no lixo se forem esquecidos durante um par de horas em cima da mesa da sala… Esqueçam tudo isto. Na vida a dois, na gestão do espaço comum, na habituação a novas realidades, no­vos hábitos e novas manias difíceis de perceber na outra pessoa, nada disto importa quando comparado com o derradeiro teste para a vida em casal: filhos!