quinta-feira, 23 de Outubro de 2014

A família do outro: entre a sorte grande e o lado negro da força




– A minha irmã telefonou-me. Para irmos lá jantar amanhã. Tentei ligar-te para falar contigo.

– Eu vi. Não podia atender. Estava em reunião. O que é que disseste?

– Disse que sim. Ela precisava de saber para fazer com pras. Não temos nada combinado, pois não?

– Não, não temos. Mas ela não sabe. Podias ter dito que não. Ou podias ter falado comigo antes de te com prometeres.

– Eu tentei falar contigo. Até te mandei uma mensagem. Não podias falar porque estavas em reunião mas podias ter respondido por escrito. Passas a vida a teclar e a falar comigo ao mesmo tempo, também podias ter feito isso agora.

– Está bem. Mas não reparei. Só vi depois.

– Mas qual é o problema? Vamos sempre jantar a casa dela, quando ela convida. E eles vêm cá imensas vezes. Porque é que agora não queres?

– Porque não me apetece. Ando um bocado farto des se programa. Passamos a vida em casa da tua irmã. Pa rece que não conhecemos mais ninguém.

– Nós conhecemos mais pessoas. Mas não nos convidam tanto. E tu gostas da minha irmã. E do Pedro. Qual é o teu problema agora?

– Porque é que nunca vamos a casa da minha irmã?

– Porque ela nunca nos convida para nada!

segunda-feira, 13 de Outubro de 2014

A MINHA CAIXA DE FERRAMENTAS É MAIOR DO QUE A TUA


Há quem o faça a cozinhar - e três horas de volta dos tachos fazem maravilhas. Há quem vá correr – dez quilómetros debaixo de chuva miudinha lavam a alma. Há quem goste de acelerar por montes e pedras – atascar um jipe num charco de lama provoca descargas de adrenalina que fazem esquecer problemas. Há quem ouça música – Mendhelsson, Iron Maiden ou guitarra portuguesa, pouco importa. Eu gosto de arranjar interruptores. E de tapar buracos na parede. E de fazer puxadas de eletricidade para pôr uma tomada nova. Não me ajeito tão bem com canalizações, mas também fico distraído se tiver de procurar solução para a torneira que pinga.

Não gosto de clichés de género, mas concedo que este é um ponto em que homens e mulheres nem sempre se entendem. Este é um daqueles capítulos em que, na maior parte dos casos, elas não percebem mesmo bem. Olham para a nossa caixa de ferramentas com um misto de dúvida – Porque é que há ali tantas coisas? Porque é que pesa tanto? Porque são precisos três martelos? – e carinho, como quem vê a caixa dos legos do miúdo. E vão-se embora a suspirar e deixam-nos a brincar, sozinhos no chão da cozinha enquanto não resolvemos o sério problema do pé do fogão que está torto ou da porta do armário que está desengonçada. Porque sabem que aquilo nos acalma e que aquilo é, supostamente, o nosso terreno. Mesmo que sejamos maus a fazê-lo. Porque - convenhamos - há homens que são mesmo muito maus nisso.

domingo, 12 de Outubro de 2014

Não somos nada



Neste domingo dorminhoco, em que cada um dos meus contextos está longe, tu no hospital com o do meio, eu regressada de outro hospital com o pequeno, o outro sabe-se lá onde e com quem, só desejei um dia lento e burocrático, invejei quem tentava estacionar na berma da estrada nacional para ir à feira mensal, apeteceu-me ter como único ponto na agenda levar pão fresco para casa e barrá-lo de manteiga para todos e, finalmente, para mim.

Haveria beijos de fugida, meias palavras malandras sobre a noite anterior, Jake e os Piratas, cocós por limpar, gatos a pedir comida, meninos aos saltos no sofá cheio de nódoas do fim-de-semana. Iríamos juntos à feira, ver as aves e o galo gigante que está preso e ameaça quem passa com o seu olhar tresloucado de quem só precisa de pôr o sono em dia, ou encontrar o amor, partilharíamos farturas oleosas, escolherias um queijo, e eu ao longe, a torcer o nariz, haveríamos de comprar duas maçãs para cada um dos pequenos, e quando passássemos pelo homem das bifanas perguntar-me-ias, em desafio, se não preferia uma sandes de coiratos. Eu obrigar-te-ia a ir comigo escolher plantinhas para a horta, três alfaces, alho francês, cebolo e as aromáticas, e tu acederias, mesmo sabendo que nada cresce num jardim romântico de musgo, onde o sol só entra por cinco minutos, por entre as trepadeiras que parecem mulheres altas, louras e determinadas: prometem muito, mas não desabrocham.

Não somos nada sem o nosso contexto. E o meu contexto és tu e os filhos.

Há uma semana, quando percebemos que algo estava muito mal com o nosso filho, deixámos de ter contexto, de ter outra existência sem ser a maquinal, a que funciona em série, deixámos de ter frio, fome, sede, sono. Durante sete dias, sobrevivemos sem saber de banhos, cafés, roupa lavada, não pensámos nas contas por pagar, nem na torneira que pinga, nem sequer nos veio à cabeça que temos uma família e que nos temos um ao outro. Quando um filho está entre a vida e a morte, até tu e eu deixamos de fazer sentido, e olha bem a improbabilidade disto que digo. Nestes dias, que alternaram entre a raiva, a angústia e o desespero, foi a máquina que obedeceu às regras mínimas do cérebro, como um animal que hiberna, ou o leitor de dvd que fica em stand-by preparado para, ao premir do botão, exibir uma maratona de filmes.

quinta-feira, 9 de Outubro de 2014

Todas as regras sobre mensagens escritas, iMessage, WhatsApp e similares



É universal. Quando ficamos à espera de uma resposta, quando somos o último a mandar mensagem, cada minuto dura horas e algumas horas assemelham-se ao que sentíamos uma hora antes de abrir os presentes no Natal, mas trocando a excitação por angústia.

Esperar por uma resposta é uma merda. Esperar por uma resposta nisto do amor é uma merda com muita angústia. Verdade seja dita, todas as formas de angústia são uma merda - custa respirar, a cabeça começa a doer, o peito começa a apertar e o desespero é o maior inimigo dos pensamentos racionais.

Segunda oportunidade: a primeira coisa mais importante depois da desilusão




Há cerca de dois anos tive uma discussão bera com um vizinho do meu bairro. Trocámos palavras feias e a coisa não acabou bem. Tudo por causa do meu carro, estacionado em frente ao prédio dele: estava coberto de pedras, algumas bem grandes, resultantes das obras na fachada do edifício. Administrador do condomínio, essa figura de xerife encartada da aldeia urbana, questionei-o enquanto responsável pela obra. Passados alguns minutos, estávamos aos gritos. Ele a berrar que eu não podia deixar ali o carro mais do que dois dias e que tinha de me sujeitar, eu a gritar mais alto, dizendo que agora deveria pagar uma pintura nova.


quarta-feira, 8 de Outubro de 2014

Se os animais falassem…



Querido humano,

Vamos lá ver se nos entendemos. Eu sou um animal. Tu és uma pessoa. Capice? Por isso, dá para parar de me tratares como se eu fosse um ser da tua espécie? É que já começo a estar farto desta brincadeira. Tens de perceber uma coisa muito simples: eu não sou, nem nunca serei, um humano sobressalente. Nunca serei, como tu tanto gostas de dizer aos teus amigos, “como um filho”. E sabes porquê? Porque eu já tenho pai e mãe. O mais provável é não saber onde eles estão, nem sequer o nome deles… mas tenho.

Embora eu ande por cá há pouco tempo, já deu para perceber que nunca serei como um filho. Por muito que tu queiras, nunca me irás levar ao meu primeiro dia de escola. Nunca aprenderei a ler, a escrever, a desenhar. Sei fazer uns truques, rebolo-me com estilo e ladro quando me mandas, mas dificilmente me conseguirás por a cantar as músicas da Xana Toc Toc.

quinta-feira, 2 de Outubro de 2014

Enamoramentos



Da série The pervert guide to you and I

«Sim, todos somos arremedos de pessoas que quase nunca chegámos a conhecer, de gente que não se aproximou ou passou ao largo na vida daqueles que amamos agora, ou que então se deteve mas se cansou passado um tempo e desapareceu sem deixar rasto ou só a poeirada dos pés que vão fugindo, ou que morreu para aquele que amamos causando-lhe uma ferida mortal que quase sempre acaba por fechar. Não podemos pretender ser os primeiros, ou os preferidos, somos apenas o que está disponível, os restos, as sobras, os sobreviventes, o que vai ficando, os saldos, e é com esse pouco nobre que se edificam os maiores amores e se fundam as melhores famílias, é essa a proveniência de nós todos, produto que somos da casualidade e do conformismo, dos descartes e das timidezes e dos fracassos alheios, e ainda assim daríamos às vezes fosse o que fosse para continuarmos juntos de quem resgatámos um dia de um sótão ou de um leilão, ou que nos coube em sorte num jogo de cartas ou apanhámos nos desperdícios»

in Os Enamoramentos, Javier Marías

Era possível começar de outra maneira. Houvesse música e seriam as palavras de Leonard Cohen que aqui ecoariam: "Many loved before us / I know that we are not new..." Tropecei neste fragmento de Javier Marías num passeio pela blogosfera, quando ainda nem pensava na Farmácia. Foi ficando presente, e não apaziguou, daí tentar compreender um pouco melhor porquê. Quando se trata de enamoramento, vivemos sempre de restos, sendo que, ao fim e ao cabo, todos nós somos sobras, ou "vianda," como se dizia na Beira para designar a ração feita de restos que era atirada aos porcos. Justamente, "vianda", em francês, é viande, e significa "carne", a carne que se compra no talho e que se come cozinhada ou não. Esta viande é diferente da chair, que também significa carne, mas que designa aquela que não se come dessa mesma maneira, que se não compra nos mesmos lugares: a carne humana, entenda-se. Seremos então, no que toca a estes vocábulos franceses, mais chair do que viande, mais gente do que restos, seremos carne mais amada do que canibalizada.