quarta-feira, 19 de Novembro de 2014

Mas que raio é isso do Tinder?




O que é o Tinder? Para quem não sabe o que é, ou quer fingir que não sabe, eu explico. O Tinder é uma aplicação de encontros. Os encontros não terão que ser necessariamente de carácter amoroso ou sexual — em alguns países é possível encontrar pessoas no Tinder que querem simplesmente que lhes mostrem a paisagem, literalmente falando. Em Portugal, até me provarem o contrário, o Tinder serve para encontros, exactamente como esperamos que sejam: com segundas e terceiras intenções, todas colocadas como primeiras.

quarta-feira, 12 de Novembro de 2014

A tua namorada de 16 anos não é ciumenta, é manipuladora


Em junho de 2013, uma crónica publicada na Notícias Magazine tornou-se viral nas redes sociais. Com 130 mil partilhas no Facebook e mais de duzentas mil visualizações no site do Diário de Notícias, «O teu namorado de 16 anos não é nervoso, é uma besta» alertava para a violência de género no namoro, exercida pelos rapazes em relação às raparigas. Esta é uma possível versão para eles.
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Exigir que tu respondas imediatamente às mensa­gens dela, questionar-te sobre os minutos que passaram até que tu «finalmente» envias um sms de resposta ou escrever «Se não me respondes é porque não queres saber de mim» não revelam que ela se preocupa. E telefo­nar-te se tu não respondes logo não é um sinal de que ela gosta de ti. Não é uma manifestação de afeto. É apenas a prova de que ela é manipuladora e quer controlar os teus passos todos. Aliás, é por essa mesma razão que ela quer saber o que fizeste, porque o fizeste, com quem falaste e quanto tempo demoraste em cada sítio por onde passas­te antes de ir ter com ela.

Vigiar permanentemente a tua conta no Facebook e pedir-te satisfações sobre os «gostos» que colocas nas fo­tografias de outros, sobre as amizades novas que pedes ou aceitas ou sobre os comentários que outras pessoas – sobretudo raparigas – fazem às tuas imagens não é uma atitude normal. Nem saudável. E escusas de pensar que tu fazes o mesmo, por isso ela pode fazê-lo. Isso é errado.

sexta-feira, 7 de Novembro de 2014

Ninguém vai gostar tanto da tua família como tu



Quando nos apaixonamos verdadeiramente por alguém, não há nada que nos pare. Tudo é cor-de-rosa, tudo é maravilhoso, tudo é superável, até ao belo e inesquecível dia em que conhecemos a família do nosso amor.

Ao contrário dos amigos, dos empregos, dos vícios, a família é daquelas coisas que não podemos mudar. Pior, nem sequer podemos escolher. E se, até certa idade, os nossos familiares directos são a nossa grande referência, com o passar dos anos começamos a aperceber-nos dos seus defeitos, das suas manias, de todas as coisas que nos tiram do sério. Mas lá está, mãe é mãe, pai é pai, irmão é irmão, e, no final, o amor é cego e ajuda-nos a perdoar todas as suas falhas.

O mesmo pode não acontecer com os pais e irmãos da nossa alma gémea. Para estes, o nível de tolerância é sempre menor e o nível de crítica inversamente proporcional, porque entrar numa família nunca é a mesma coisa do que nascer nessa família. Há toda uma história por trás de cada piada, por trás de cada afecto e, sobretudo, por trás de cada boca foleira. São precisos anos e anos para conhecer todas as tradições, achar graça a todas aquelas pessoas e não levar a mal o tipo de humor (ou a total ausência dele, nalguns casos) que se pratica naquele lar. E se a coisa lá vai funcionando durante o namoro, tudo muda de figura quando há um compromisso mais sério e se começam a passar natais e fins-de-semana juntos.

quinta-feira, 6 de Novembro de 2014

Morreu um dos nossos. E agora, fica tudo igual?



«Já sabes? Morreu a Ana.» Em quarenta anos, pou­cas vezes tive de dizer ou escrever isto. Não sei que voltas são essas que a vida dá, que não me costuma calhar a lo­taria de ser o mensageiro da morte de alguém. Tirando uma vez, que me valeu por todas por ser alguém tão pró­ximo – um dia serei capaz de escrever sobre isso –, creio que me recordo de todas as ocasiões em que dei notícias destas. Normalmente recebo-as.

A última foi há umas semanas. Morreu a Ana e fui eu que enviei a mensagem a uma amiga com quem tinha fa­lado sobre ela, a própria Ana, meia dúzia de dias antes. Mor­reu a Ana e fui eu que escrevi o sms, depois de saber, pelo grupo fechado que temos no Facebook, só com colegas de faculdade. Morreu a Ana e, naqueles minutos de uma viagem de metro, agarrado ao telemóvel, entre a Baixa–Chiado e o Marquês de Pombal, tentei lembrar-me da úl­tima vez que nos vimos. Tinha sido num desses jantares de curso, regados a vinho e a gargalhadas. Não a via há alguns anos, tal como não via o Gualter, a Cláudia, a Pa­trícia, o Alexandre, a Sofia ou o Nuno. Fizemos conversa de circunstância mas também falámos de coisas sérias. Dos anos que tinham passado, do que fazíamos, de uns que tinham mais quilos e de outros que tinham menos cabelo, deste que espera um filho, daquele que vai a ca­minho do segundo, do outro que já tem três. Falámos de tudo e de nada e, quando os assuntos acabaram, fomos falar de tudo e de nada para outro canto da mesa, com outras pessoas.

segunda-feira, 3 de Novembro de 2014

Lembra-me lá como é que isso foi. Mesmo que não seja importante.



«Lembras-te da primeira vez que bebemos uma im­perial?» A pergunta não tinha um tom profético nem foi acompanhada de um olhar solene, por isso não lhe dei grande importância. Era só uma frase lançada para o ar depois do primeiro gole numa cerveja, numa dessas tar­des de fim de setembro com sabor ao verão (que se prolongou por outubro) que não tive­mos em julho ou agosto. «Não me lembro. Quando é que foi isso?»

Tinham passado quase seis anos desde aquela noi­te em que brindámos a duas coisas que viriam a tornar-se importantes. Uma nas nossas vidas (conhecíamo-nos há pouco tempo e nunca tínhamos bebido copos jun­tos), a outra na vida do P. (não interessa o nome, para es­ta crónica ele será só o P.): semanas depois, a miúda com quem ele tinha saído na noite anterior, e de quem não pa­rava de falar, tornar-se-ia namorada dele; mais um par de meses e estavam a partilhar casa; um ano volvido estavam a mudar para outro espaço, maior, já a pensar em filhos.

terça-feira, 28 de Outubro de 2014

Em casa no sofá



Um amor e uma cabana é coisa de letra de canção do José Cid. É irreal, mas percebe-se porque é que a cabana foi o casebre escolhido para uma relação apaixonada e duradoura: não dá trabalho nenhum.

Um estudo recente — acredito que tem havido vários ultimamente — dá conta que grande parte dos aborrecimentos e discussões entre casais se deve à lida da casa. Ah pois. Não há amor que sobreviva a pratos e panelas na cuba do lava-louça dias a fio. Já para não falar da tampa da sanita permanentemente levantada ou da arte de escrever em móveis com, pelo menos, meio centímetro de altura de pó.

quinta-feira, 23 de Outubro de 2014

A família do outro: entre a sorte grande e o lado negro da força




– A minha irmã telefonou-me. Para irmos lá jantar amanhã. Tentei ligar-te para falar contigo.

– Eu vi. Não podia atender. Estava em reunião. O que é que disseste?

– Disse que sim. Ela precisava de saber para fazer com pras. Não temos nada combinado, pois não?

– Não, não temos. Mas ela não sabe. Podias ter dito que não. Ou podias ter falado comigo antes de te com prometeres.

– Eu tentei falar contigo. Até te mandei uma mensagem. Não podias falar porque estavas em reunião mas podias ter respondido por escrito. Passas a vida a teclar e a falar comigo ao mesmo tempo, também podias ter feito isso agora.

– Está bem. Mas não reparei. Só vi depois.

– Mas qual é o problema? Vamos sempre jantar a casa dela, quando ela convida. E eles vêm cá imensas vezes. Porque é que agora não queres?

– Porque não me apetece. Ando um bocado farto des se programa. Passamos a vida em casa da tua irmã. Pa rece que não conhecemos mais ninguém.

– Nós conhecemos mais pessoas. Mas não nos convidam tanto. E tu gostas da minha irmã. E do Pedro. Qual é o teu problema agora?

– Porque é que nunca vamos a casa da minha irmã?

– Porque ela nunca nos convida para nada!