quinta-feira, 2 de julho de 2015

Conhecem bem o vosso marido? Então experimentem divorciar-se.



«E viveram felizes para sempre.» Haverá fase mais enganadora e desajustada da realidade? Não só porque viver feliz para sempre deve dar uma trabalheira danada – precisamos de ter tempo e disponibilidade para nós, para não estar felizes da vida a toda a hora – mas também porque o «para sempre» é muito tempo. Uma eternidade adaptada ao nosso período de vida. Com isto em mente, continuo ainda à espera de ver, algum dia, no final de um filme lamechas, uma frase marcante antes das letras dos créditos finais, enquanto o casal de protagonistas se beija junto a alguma ponte de Paris, nalguma praia caribenha ou com a silhueta dos arranha-céus de Manhattan em fundo: «Não viveram felizes para sempre, mas enquanto estiveram juntos trataram-se bem». Era mais realista. Perfeito, perfeito, era haver duas frases. Depois desta, a outra, igualmente marcante: «E quando se divorciaram, não chamaram nomes um ao outro». 

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Finais felizes



Nemo, Rei Leão, Shrek, Aladino, Cars, Idade do Gelo, Os Incríveis, Madagáscar. 
Não vi nenhum. Nem um. Nem um bocadinho. Nada.
É normal, não tenho filhos.

Sim, eu sei que a qualidade do cinema de animação é espetacular, que há um Oscar nessa categoria, que as grandes estrelas de Hollywood dão voz às personagens, que há versões portuguesas com alguns dos melhores atores nacionais, que as histórias são muito engraçadas, que as músicas ficam no ouvido, sei disso tudo. Mas não é a minha praia. E desculpem lá se não me apetece ir a vossa casa, sentar-me no vosso sofá e levar com essa xaropada enquanto os vossos putos ficam embasbacados a olhar para o ecrã da televisão.

terça-feira, 9 de junho de 2015

A importância de se chamar Caitlyn. E de usarmos o pronome certo



Quando é que hum homem passa a ser mulher? Quando um parecer médico o determina? Quando uma comissão o avalia? Quando um procedimento cirúrgico é concluído? À vontade, podem rir do «procedimento cirúrgico». Também podem responder «nunca». Se não nasceu mulher, nunca é mulher. Podem até acrescentar que, se foi «criado» homem, assim será a vida toda. A vida toda dele. Mesmo que se sinta «ela». Ou, então, passa a ser mulher no dia em que assim o entende. No dia em que o sente. No dia em que o assume. Perante si. E, talvez mais tarde, quando resolver partilhar com o mundo. Seja qual for a resposta, a decisão é dela. Sim, ela. É da vida dela que falamos.

Assim que a famosa capa da Vanity Fair com Caitlyn Jenner foi tornada pública, a 1 de Junho, as reações sucederam-se. Posts no Facebook, tweets, artigos de opinião, perfis escritos ou atualizados rapidamente, a notícia espalhou-se como fogo em seara seca. Naquele dia, em menos de quatro horas, a conta de Caitlyn no Twitter chegou ao milhão de seguidores. Mas a notícia não era propriamente a mudança de sexo – há muito tempo que se sabia que Bruce Jenner estava a levar a cabo um processo de transição. A notícia foi a elegância com que a insuspeita Vanity Fair lhe cedeu uma capa. Com isso, marcou uma posição. Felizmente partilhada por alguns órgãos de comunicação social pelo mundo inteiro. Não escreveram sobre o ex-atleta olímpico, medalha de ouro no decatlo em Montreal em 1976, padrasto das irmãs socialite americanas Kardashian, que resolveu tornar-se mulher. Em vez disso, contaram a história de Caitlyn. E trataram-na como ela merece: por «ela».

quarta-feira, 27 de maio de 2015

A vida resolve. Nos dias bons, nos dias maus e nos dias assim-assim.



Devíamos estar no Inverno. Ou para lá caminhávamos. Já não sabia a outono, mas ainda não tinha cheiro de Natal. Estava frio, mas não muito. E chovia. Mais do que os pingos molha-tolos, menos do que uma borrasca. Deviam ser umas seis horas, mais coisa menos coisa. Já estava escuro, mas nem era noite cerrada nem sabia a fim de tarde. Só me apercebi deste assim-assim de temperatura, de chuva e de luz natural quando desliguei o telemóvel. Estava a meio da Avenida Duque de Loulé, entre o Marquês de Pombal e o Liceu Camões, encostado à parede de um hotel com um guarda-chuva que não protegia do vento nem da água. Parado. Nem para cima nem para baixo. A cabeça a trabalhar rapidamente: «E agora, o que é que eu respondo a isto?»

Tinha acabado de atender um telefonema de uma amiga que me tinha feito um pedido complicado. Daqueles que nos fazem respirar fundo a pensar na resposta. Não porque não a saibamos, mas porque vamos ter de procurá-la onde custa mais – cá dentro. A minha amiga tinha um amigo que enviuvara recentemente. E ele estava como estão as pessoas que ficam viúvas. Vazio. Esmurrado. Desnorteado. A causa da morte da mulher pouco importa. Cada um carrega as suas cruzes, e as dele, naquele momento, eram aquelas. As dúvidas. A tristeza. O que tinha dito e deixado por dizer. O que tinha deixado por fazer. Se tudo o que fizera – e, caramba, se ele fez muito – parecia, afinal, que não tinha resultado e que o desfecho fora o que ele mais temia, então de que tinha adiantado? Falavam frequentemente, ele e a minha amiga, e ela já não sabia o que mais podia dizer-lhe. Saber, até sabia, mas queria mais. Queria que ele falasse mais. Que ouvisse mais. Ou, pelo menos, que ouvisse diferente. E por isso telefonou-me: «Tu, que passaste pelo mesmo, podes falar com ele?»

«A vida resolve.» Foi isso que disse ao P. (o nome não interessa para a história) na única vez que nos encontrámos cara a cara, num café da Avenida da Liberdade. Ele, tal como eu, não tinha filhos à data da morte da mulher, por isso o luto era vivido sozinho. Sem transferências. Não há fórmulas especiais nem métodos infalíveis, disse-lhe com base no que sabia da minha própria experiência. Cada pessoa sente a dor e a saudade de forma única. As pessoas que partem são diferentes, as que ficam e sentem a falta também. Há dias muito maus e outros ainda piores. Uns passam devagar, para sentir tudo, outros são empurrados com a barriga, para não sentir muito. E não pensar nada. Há quem passe pelas fases todas que os psicólogos teorizam, do choque à aceitação, passando pela revolta ou a negação. Há quem lhes troque a ordem. Há quem saia do negro para a página seguinte. Cada um saberá de si. Até ao dia em que, sem esperarmos, sem planearmos, descobrimos que somos capazes de gostar novamente. Pode demorar meses. Ou anos. Ou décadas. Abençoado órgão, o coração, que estica para podermos arranjar espaço para mais alguém, mantendo e respeitando o lugar que outra pessoa ocupou. Noutras circunstâncias.

É a primeira vez que escrevo sobre isto. Partilhar com quem não se conhece a experiência de perder alguém que se amava exige estofo. E exige, sobretudo, um motivo à altura para o fazer. Por respeito a quem partiu, à família que ficou, mas, sobretudo, por respeito à minha memória, achei que só devia fazê-lo quando tivesse alguma coisa nova para dizer. Para deixar os leitores a pensar no sentido da vida, na importância de não deixar coisas por dizer, na necessidade de arrumar a cabeça, etc... Muitos eteceteras...  Esse dia nunca tinha chegado. Até hoje. Afinal não são precisas trombetas. Basta um sinal. Um clique. Vi há pouco no Facebook que o P. casou... Ia sabendo dele pela rede social, mas nunca mais tínhamos falado. Está feliz. Mandei-lhe uma mensagem a dar os parabéns e confirmou-me que sim, que a vida resolveu. Com naturalidade.


PS: o título é adaptado a partir de alguns textos da Catarina Beato, a quem já agradeci pelo empréstimo.


Editado. Publicado originalmente na Notícias Magazine, 10 Maio 2015

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Um ano depois, isto é melhor do que eu pensava



São onze e meia. Lembrei-me agora do dia que é hoje e deu-me uma vontade de te escrever. Se bem te conheço, como não ligas puto a datas, também não deves ter memorizado esta. Mas eu lembro-me: 21 de maio de 2014. Faz hoje um ano que saí de casa. Acon­teceram muitas coisas entretanto. Arranjei uma casa nova, depois arranjei outra. Mudei de carro. Não mu­dei de emprego, como queria, mas acabei por receber a promoção que de que andava atrás há tanto tempo. Menos mal. Fiz duas viagens. Fui a Roma e voltei ao Brasil. Tu dizias que não tinhas pachorra para férias no Nordeste e por isso não te apetecia voltar ao Brasil. Lembrei-me disso quando estava lá. Lembrei-me de ti. Não eram saudades. Era alívio, por não te ter a cha­tear-me, à procura de algum defeito no hotel. E co­mo ainda somos amigos no Facebook, vi que por es­ses dias andavas a queixar-te do frio. Que irónico. Tu a dizeres mal da tua vida, com frio, e eu a beber água de coco do outro lado do mar, com os pés de molho, a agradecer as voltas da vida.

No meio de tantas coisas que aconteceram, houve uma que não mudou: continuo a ter um gran­de desprezo por ti. Pensava que, ao fim de uns tempos, ia acabar por passar por aquelas fases todas do luto. O luto de uma relação. A raiva, a tristeza, a incompreen­são, a aceitação… Isso tudo de que falam os livros, a in­ternet e o meu psicólogo. Sim, comecei a fazer terapia. Para poder voltar a gostar de mim. Custou, mas con­segui. Mas, ao contrário do que toda a gente diz (até esse psicólogo com quem gostava tan­to de falar mal de ti – agora já não és assunto), ainda não cheguei à aceitação. E isso não me cha­teia. Gosto da ideia de te des­prezar. De pensar que me és (quase) indiferente.

terça-feira, 19 de maio de 2015

(Quase) tudo o que é desigual entre homens e mulheres cabe numa fralda



Preparar a cama. Preparar tudo o que será necessário ter à mão. Tirar as calças. E as meias. Deitar com cuidado. Abrir as molas do body. Levantá-lo, na direção da barriga e das costas, para garantir que não se irá sujar. Abrir um adesivo. Abrir o outro. Levantar devagarinho. Espreitar. Mudar uma fralda é uma das mais básicas tarefas para cuidar de um bebé. O banho, ainda percebo que faça alguma confusão, sobretudo nos primeiros dias. A refeição, consigo entender que não é coisa fácil, sobretudo quando eles rejeitam a sopa ou a papa. Cortar as unhas pode ser um pesadelo de nervos, tal o medo de um deslize para os dedos pequenitos. E acalmar as cólicas é, por vezes, um desafio aos limites da paciência (e de tolerância a decibéis). Mas a fralda, senhores…

Colocar no primeiro parágrafo uma mudança de fralda talvez afugente os leitores avessos a conversas de bebés. Mas, para os outros, o tema pode ser controverso na gestão de uma relação com filhos. Basta pensarem que o gesto tem de ser repetido pelo menos seis vezes por dia (oito, nos primeiros tempos, três, quando começam a controlar a coisa, perto dos dois anos e meio). Se isso recair sempre sobre o mesmo elemento do casal – normalmente a mãe – ou se for sempre feito em jeito de frete, podem crer que têm aí um problema. Um problema grave de desigualdade, que não ocorre apenas em vossa casa nem começou com vocês.

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Um bâton de cada vez. Até à vitória final


Durante anos foi um objetivo (ou, vá lá, um ponto a favor) de cada vez que procurava casa: queria uma que tivesse casa de banho com janela. Agrada-me a ideia de ter luz natural num cubículo pequeno onde passamos tanto tempo – sobretudo depois de ter filhos, já que é a única divisão onde ainda se consegue ter alguns minutos de aparente sossego. Hoje, que vivo numa casa que tem WC com janela, tenho a fasquia um pouco mais elevada: na próxima, quero uma abertura para o exterior E uma bancada em condições. Daquelas grandes, onde cabem muitos frascos e embalagens, capaz de acumular pó e pedaços de sabão seco, mas suficientemente extensa para caberem ali os essenciais de higiene e beleza da minha mulher. Pode ser que assim ela não continue o processo de colonização das minhas prateleiras.