quarta-feira, 4 de março de 2015

Pai, mais uma ficha, mais uma voltinha


Não sei qual é a memória mais antiga do meu pai. Cronologicamente falando. As lembranças que tenho dele de quando eu era criança atropelam-se de forma mais ou menos caótica na minha cabeça. Momentos diferentes, em espaços diferentes, não consigo datá-los de forma ordenada. Alguns estarão separados por anos, outros, por dias. Em todos eles, estávamos apenas os dois.

Lembro-me de ele me segurar a bicicleta cor de vinho que se desdobrava e entrava no porta-bagagens do velho Ford Escort azul-bebé, quando me ensinou a pedalar junto à casa que ele próprio construiu, com a ajuda de pedreiros que contratava ao fim de semana. Lembro-me de passear com ele junto ao balneário das Termas de Monfortinho e lhe perguntar como é que nasciam os bebés – e de ele me dizer para ir falar com a minha mãe. Lembro-me de ele chegar a casa, vindo do trabalho no Porto de Lisboa, dar a volta da praxe ao carro estacionado na rua, garantindo que as portas estavam fechadas e que não havia novos riscos, e de me dar um beijo, acompanhado de um «Então e que tal, rapaz?».

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Não cozinhas, não limpas o pó, não sabes usar um berbequim. Para que serves tu?


¬ E uma camisa, és capaz de passar?

¬ Acho que sim. Não há de ser muito difícil.

¬ Por acaso é. É das coisas mais difíceis de passar a fer­ro, uma camisa. Mas pronto, achas que és capaz?

¬ Se é das coisas mais difíceis, por que é que me pedes para passar precisamente a camisa?

¬ Eu não te estou a pedir. Estou a perguntar se és ca­paz. Calculo que não, mas pergunto à mesma.

¬ Isto parece conversa de malucos.

¬ Eu é que estou a dar em maluca ao ver a quantidade de coisas que tu não sabes fazer. Comecei pelas simples. Já vi que não sabes. Pode ser que sejas bom nas complicadas.

¬ Já te disse que não sei passar a ferro.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Verdades universais por volta dos 40 anos


PASSAMOS A SAIR MUITO MENOS. E não é só porque temos filhos. É porque temos menos pachorra. As noites de sábado deixam de ter programa obrigatório e nós dei­xamos de nos chatear por isso. As melhores noites de co­pos passam a ser as que não estavam programadas durar até às tantas e, de vez em quando, lá sentimos falta dis­so – e dos jantares com amigos por tudo e por nada. Mas do que temos mesmo saudades é de ir ao cinema com re­gularidade – e pensamos nisto todos os anos, quando se começa a falar dos Óscares e percebemos a quantidade de filmes que não vimos no ano anterior.

POR FALAR EM COPOS… há pelo menos dez anos que sabemos que as ressacas são agora mais fortes do que eram quando andávamos na faculdade. Mas nem por is­so deixámos de beber. Agora, porém, já pensamos duas vezes antes de pedir outro gin tónico – sobretudo porque sabemos que ao sábado ou ao domingo de manhã, aque­la dor de cabeça vai ser mais difícil de aguentar com os filhos a correr pela casa.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Querem testar os limites do vosso casamento? Façam um filho. Melhor, façam dois



Tampa da sanita para cima? Pratos sujos durante horas na bancada da cozinha? Gavetas desarrumadas? Roupa e sapatos espalhados pela casa? O comando da te­levisão que nunca aparece? Caixas com restos de comi­da no frigorífico até ganhar bolor? Ou então o contrário de tudo isto: os tupperwares organizados por tamanho e cor; os cabides todos iguais no roupeiro, virados para o mesmo lado; os iogurtes separados por sabor e prazo de validade; o stock de champô armazenado para um even­tual ataque nuclear; os papéis enfiados no lixo se forem esquecidos durante um par de horas em cima da mesa da sala… Esqueçam tudo isto. Na vida a dois, na gestão do espaço comum, na habituação a novas realidades, no­vos hábitos e novas manias difíceis de perceber na outra pessoa, nada disto importa quando comparado com o derradeiro teste para a vida em casal: filhos!

sábado, 17 de janeiro de 2015

O que é que a Irina tem?



Tem 1,77m de altura, tem olhos verdes, tem lábios carnudos, tem curvas e tem um sotaque russo que abraça o inglês como se fosse uma bond girl da antiga cortina de ferro. E agora, tem também um ex-namorado que conhecemos bem [acrescentado em janeiro de 2015].

Sorriso grande. Boca bonita. Cabelos escuros, compridos. Os olhos castanhos, iluminados de excitação, apontam em todas as direções. Não consegue parar quieta. Ainda não acredita. Sara Lopes tem 18 anos e vem de Odivelas. É estudante do 12.º ano, faltou a uma aula de português e acaba de conseguir um autógrafo de Irina Shayk. «Tenho de tirar uma fotografia e pôr já no Facebook.» Depois de esperar uma hora, foi a primeira de muitas dezenas de fãs ter a desejada assinatura, os dois beijinhos e a fotografia ao lado da modelo russa. Os outros todos, os que ainda estão na fila, à porta da loja da Intimissimi, na Rua Augusta, debaixo da chuva miudinha que começa a cair sobre Lisboa, ainda têm de aguardar. Chegará a vez deles. Nas duas horas seguintes, todos terão um cheirinho de Irina para contar.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

O que importa não tem data marcada


Não gosto de votos e promessas e resoluções de Ano Novo. Gosto de motivos para mudar de atitude, ra­zões para mudar de rumo, pretextos para mudar com­portamentos. Mas não gosto de fazer alarido disso. E não me refiro a bradar aos quatro ventos ou a tatuar uma lista de objetivos no braço. Para fazer alarido, basta re­lacionar esses momentos de «Agora é que é!» com um dia marcante como o 1 de janeiro. Fazer isso numa da­ta específica, associado a uma efeméride como a da passagem de ano, é o equivalente a convocar a fanfarra dos bombeiros e encomendar três toneladas de fogo-de-artifício. Se envolver champanhe e passas, en­tão, é meio caminho andado para não ter vontade de de­sejar nada de importante. Apenas uma boa noite de co­pos e uma manhã tranquila, sem ressaca.

Se tiver de fazer alterações daquelas que impli­cam pensar que «doravante vai passar a ser assim» (ou «assado»), prefiro fazê-las de mansinho. Discretamen­te. O dia D, o momento zero que marca a fronteira entre o antes e o depois, não pode estar associado a nada mar­cante. Não deve. Caso contrário, se a coisa falhar, o peso do fracasso será muito maior. Enfim, é uma mania. Ca­da um tem as suas. Eu tenho esta. E quer-me parecer que não devo estar sozinho nisto.

Como é que teria sido se tivessemos ficado juntos?



É ela, é. É mesmo ela. Ou não…? Espera lá… Ela não tinha o cabelo assim. Aquilo não é o cabelo dela. Pin­tou? Como é que as mulheres dizem? Madeixas. Fez ma­deixas. Ou nuances? Nunca sei. E está mais ondulado. E mais curto. Fica-lhe bem. Está gira. E mais magra. Bem mais magra. Fogo, deve ter perdido uns cinco ou seis quilos. Não é que fosse gorda, mas agora está bem fininha. Mas continua com umas boas mamas. Sim se­nhor. E belas pernas. Belos saltos altos. O que é que ela fará? Para vir assim vestida às compras, a esta hora, de­ve ter saído do trabalho. A vida tratou-te bem.

Ups, olha para outro lado, olha para outro lado. Olha para os iogurtes. Ela está a olhar para cá. Ainda es­tá? Não. Boa. Está a falar com a miúda. Será a filha? Não pode ser. Não pode ter uma filha daquela idade. Ou po­de? Então, deixa lá fazer as contas. 2002? 2003? Sim. Já lá vão 11 anos. Já acabámos o namoro há 11 anos. Bolas, olha o que os anos fazem a uma ex-namorada. Emagre­ce, pinta o cabelo, tem uma filha, fica mais gira… Ó tem­po volta para trás, o caraças. Anda mas é para a frente. Se passados 11 anos está assim, como é que estará daqui a mais 11? Bom, eu também tive um filho. Só não ema­greci. Pelo contrário. E tenho menos cabelo. Mas a ela, o tempo fez-lhe bem. Outra? Outra miúda a chegar? Duas filhas? Três!? Bolas, tem três filhas? Sim senhora…