segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Chegar-te tarde


Às vezes queria ter começado tudo contigo.

Os primeiros beijos de língua. Os primeiros tremores. A primeira vez. Os foguetes, as canas, o fogo de artifício. Os ventos fortes e as marés vivas.

Queria que tivesses sido o meu primeiro amor da Primária. A primeira paixão platónica da Secundária. O meu par na primeira festa da escola. 

Queria ter descoberto contigo as acrobacias do corpo e os devaneios saudavelmente insanos da alma.

Queria ter estreado tudo contigo. Queria ter acertado à primeira.

Os homens não sabem escolher prendas



Há uma verdade universal que quanto mais cedo for interiorizada pelas mulheres de todo o mundo, menos desilusões causará nos momentos de celebração: os homens não têm jeitinho nenhum para escolher prendas. Claro que há excepções, mas estas, como em tudo, só confirmam a regra.

Não é por mal, nem é por não terem orçamento, é simplesmente porque ficam intimidados com tudo o que tenha a ver com o mundo das mulheres e acham, do fundo do coração, que se dizemos que precisamos de uma máquina de café nova ficaremos felizes por receber uma como presente de Natal. Pobres diabos... Fazem ideia do que significa para uma mulher receber um electrodoméstico? Anos e anos de luta pelos direitos femininos e pela anulação do nosso papel doméstico a serem desprezados por um simples objecto de uso quotidiano.

Eu sei que o meu marido não vai achar graça nenhuma a esta confissão, mas há dois episódios em concreto que exemplificam bem como a melhor das intenções pode acabar por arruinar um momento especial.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Igualdade de género? Isso é uma fantasia de Natal, certo?



– Mas porque é que tenho de ser eu?

– Estás a gozar comigo, não estás?

– Não, não estou. Sabes como ando a mil à hora no es­critório. Não podes ser tu a tratar disso?

– Posso. Poder posso. Mas não quero. Por que é que não hás de ser tu? Sou sempre eu. Sempre fui eu. Este ano, para variar, podes ser tu. Aliás, vais ser mesmo tu. Eu não trato disso.

– Mas se és sempre tu, por que é que este ano é diferente?

– Olha lá, tu queres que eu te mande a um sítio ou es­tás só a meter-te comigo? Estamos casados há 17 anos, antes disso namorámos quatro. E tu nunca, mas nun­ca, trataste dos presentes de Natal. Este ano, por essa razão, trata tu.

– Mas qual razão? Estás a falar de quê?

– Estou a falar de estar cansada de ser sempre eu a pen­sar nisto tudo. Fazer a lista a tempo. Andar a correr que nem uma louca à procura das coisas. Depois, pen­sar nas alternativas quando não há o que queremos ou é muito caro. E às vezes ainda tenho de levar contigo a torcer o nariz porque não gostas disto ou daquilo. Pois olha, este ano não vai ser assim. Este ano fazes tu a lis­ta e fazes tu as compras.

domingo, 23 de novembro de 2014

Tudo o que se pode dizer com um silêncio



Não me lembro de quantas vezes aconteceu, mas foram as suficientes para quase se tornar um hábi­to. Ou, pelo menos, para eu já não estranhar quando ocorria. E até para achar alguma piada cada vez que ela o fazia. Durante vários meses, em várias ocasiões em que estava sozinho com a minha filha mais velha, ela olhava para mim e chamava-me. «Papá.» Eu, ine­vitavelmente, dava-lhe a mesma resposta. «Diz, filha. O que é?» E ela, que não respondia, voltava à carga passados uns minutos. «Pai.» Eu dava a mesma répli­ca. Ela, nada. Levantava a cara do que estava a fazer, olhava para mim durante uns segundos e continua­va a brincar. Por mais que eu insistisse, dali não saia mais nada. Fosse qual fosse a fórmula. «Chamaste o pai?» «Carolina, o que é?» «Precisas de alguma coisa, filha?» «Sim, chamaste?»

Comecei a achar graça àquilo que eu achava que era uma brincadeira. Fazia-lhe uma festa na cara ou pegava-lhe ao colo durante uns minutos ou sorria… E lá voltava eu ao que estava a fazer antes. A prepa­rar o jantar. A passar os olhos à pressa pelo noticiário na TV. A focar-me na condução… Uma das vantagens de ver os filhos crescer é vê-los ganhar autonomia suficiente para nos oferecerem uns preciosos minutos em que não temos de lhes dedicar atenção exclusi­va. Acontece – e demorei algum tempo até entender isto – que o que a minha filha queria era precisamente isso: atenção. No fundo, de cada vez que ela voltava para o que a en­tretinha, estava, afinal, a dizer «Resposta errada, pai».

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Mas que raio é isso do Tinder?




O que é o Tinder? Para quem não sabe o que é, ou quer fingir que não sabe, eu explico. O Tinder é uma aplicação de encontros. Os encontros não terão que ser necessariamente de carácter amoroso ou sexual — em alguns países é possível encontrar pessoas no Tinder que querem simplesmente que lhes mostrem a paisagem, literalmente falando. Em Portugal, até me provarem o contrário, o Tinder serve para encontros, exactamente como esperamos que sejam: com segundas e terceiras intenções, todas colocadas como primeiras.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

A tua namorada de 16 anos não é ciumenta, é manipuladora


Em junho de 2013, uma crónica publicada na Notícias Magazine tornou-se viral nas redes sociais. Com 130 mil partilhas no Facebook e mais de duzentas mil visualizações no site do Diário de Notícias, «O teu namorado de 16 anos não é nervoso, é uma besta» alertava para a violência de género no namoro, exercida pelos rapazes em relação às raparigas. Esta é uma possível versão para eles.
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Exigir que tu respondas imediatamente às mensa­gens dela, questionar-te sobre os minutos que passaram até que tu «finalmente» envias um sms de resposta ou escrever «Se não me respondes é porque não queres saber de mim» não revelam que ela se preocupa. E telefo­nar-te se tu não respondes logo não é um sinal de que ela gosta de ti. Não é uma manifestação de afeto. É apenas a prova de que ela é manipuladora e quer controlar os teus passos todos. Aliás, é por essa mesma razão que ela quer saber o que fizeste, porque o fizeste, com quem falaste e quanto tempo demoraste em cada sítio por onde passas­te antes de ir ter com ela.

Vigiar permanentemente a tua conta no Facebook e pedir-te satisfações sobre os «gostos» que colocas nas fo­tografias de outros, sobre as amizades novas que pedes ou aceitas ou sobre os comentários que outras pessoas – sobretudo raparigas – fazem às tuas imagens não é uma atitude normal. Nem saudável. E escusas de pensar que tu fazes o mesmo, por isso ela pode fazê-lo. Isso é errado.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Ninguém vai gostar tanto da tua família como tu



Quando nos apaixonamos verdadeiramente por alguém, não há nada que nos pare. Tudo é cor-de-rosa, tudo é maravilhoso, tudo é superável, até ao belo e inesquecível dia em que conhecemos a família do nosso amor.

Ao contrário dos amigos, dos empregos, dos vícios, a família é daquelas coisas que não podemos mudar. Pior, nem sequer podemos escolher. E se, até certa idade, os nossos familiares directos são a nossa grande referência, com o passar dos anos começamos a aperceber-nos dos seus defeitos, das suas manias, de todas as coisas que nos tiram do sério. Mas lá está, mãe é mãe, pai é pai, irmão é irmão, e, no final, o amor é cego e ajuda-nos a perdoar todas as suas falhas.

O mesmo pode não acontecer com os pais e irmãos da nossa alma gémea. Para estes, o nível de tolerância é sempre menor e o nível de crítica inversamente proporcional, porque entrar numa família nunca é a mesma coisa do que nascer nessa família. Há toda uma história por trás de cada piada, por trás de cada afecto e, sobretudo, por trás de cada boca foleira. São precisos anos e anos para conhecer todas as tradições, achar graça a todas aquelas pessoas e não levar a mal o tipo de humor (ou a total ausência dele, nalguns casos) que se pratica naquele lar. E se a coisa lá vai funcionando durante o namoro, tudo muda de figura quando há um compromisso mais sério e se começam a passar natais e fins-de-semana juntos.