domingo, 19 de abril de 2015

Vai uma corrida? Mas ponham no Facebook. Se não, as calorias gastas não contam



– Vou começar a correr.

– Tu? Mas tu detestas correr.

– Não detesto. Não gosto muito, mas não detesto.

– Detestas, detestas. Ainda há dias disseste isso à tua irmã, que eu ouvi. Estavas com ela ao telefone a dizer que não percebias como é que ela corria todos os dias.

– Mas tu é que sabes o que eu detesto?

– Eu lembro-me de te ouvir. E não foi por o dizeres na semana passada. Nunca gostaste de fazer exercício.

– Eu fazia ginástica na escola.

– Pois fazias. E detestavas. Eu sou teu marido, sei es­tas coisas, lembras-te?

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Faz-me rir. De todas as coisas que me podes fazer, faz-me rir



De todas as coisas que o criador resolveu aperfei­çoar depois de concluir com sucesso o primeiro modelo de ser humano, o sentido de humor deve ter sido aque­la que mais o divertiu. A sério, ponham-se na pele dele. Perdão, d’Ele. De repente, vocês têm o poder de fazer al­guém (só esta ideia já provoca arrepios) à vossa imagem e semelhança – isto é que é capaz de já ser poder a mais para alguns de vocês, mas trata-se de um exercício de imaginação, por isso embebedem-se à vontade com a ideia. Não contentes com isso, vocês ainda podem deci­dir qual o tipo de coisas com que aquela criatura se vai rir. Se será um tipo que precisa de uma piada ao estilo Benny Hill – grandes decotes, uma mama a saltar por fo­ra e um homem a fazer caretas e a revirar os olhos – ou se será alguém que gosta de se divertir a explorar as peque­nas fraquezas humanas, como o Larry David. Irá prefe­rir o humor negro ou delirará com sketches dos Monty Python? Achará piada a programas de apanhados ou torcerá o nariz aos limites do bom gosto com um carto­on ofensivo para alguém (não é supos­to haver limites nenhuns para a liberdade nos cartoons, mas isso são outros duzentos).

Mas, mais importante do que as coisas que vocês, hipoteticamente, poderiam decidir que iria desenca­dear uma gargalhada no vosso pequeno humano, se­riam as gargalhadas que ele próprio seria capaz de pro­vocar nos outros. E aí já seria precisa uma afinação mais precisa. Aí já seria necessário olhar com mais cuidado pa­ra o que tinham em mãos. É que isso é um poder grande. Muito grande. Porque se prende diretamente com um gatilho poderoso para o nosso bem-estar: a capacidade de usar o humor como ferramenta de engate. Mais do que moldar um homem com um órgão sexual de proporções bíbli­cas, capaz de horas e horas de prazer ininterrupto (medo!) ou criar uma mulher com uma cara de anjo e umas curvas de fazer parar o trânsito, escolher o tipo de humor que ele ou ela teriam como ferramenta para che­gar ao coração e à atenção de outras pessoas é um poder extraordinário. Mais: é O poder supremo. 

terça-feira, 14 de abril de 2015

Prometo amar-te, respeitar-te e oferecer-te um micro-ondas


– Mas gostas mesmo?

– Gosto.

– Não pareces muito satisfeita.

– Gosto. A sério. Já te tinha dito que devíamos comprar uma.

– Pois. Foi o que me lembrei. E é o novo modelo. Não sei bem qual é a diferença para o outro, mas a senhora diz que esta tem mais umas cenas aqui e que é mais fácil pa­ra lavar.

– Não sei, vou ver depois. Amanhã olho para isto com calma e vejo as instruções

– Amanhã? Não vais abrir o teu presente hoje?

– Já abri. Já vi o que é. Não vale a pena tirar da caixa, fica aqui tudo espalhado. Amanhã trato disso, arranjo espa­ço na bancada e vejo os papéis todos.

– Agora é que estou mesmo com a ideia de que não gos­taste. Isto não é nada teu, não abrir as coisas.

– Gostei, gostei. Obrigado.

– O que é que se passa?

– Nada, não se passa nada.

terça-feira, 7 de abril de 2015

Se me encontrares, bates-me. Se não me encontrares, estou no roupeiro



Durante alguns anos, o tema foi tabu. Proibi­do. Zona interdita a comentários, risinhos e piscadelas de olho. Nada podia ser dito sobre aquele episódio. Ao início foi difícil respeitar a vontade do Pedro (ele não se chama Pedro, mas vamos respeitar, ao menos, o anoni­mato do rapaz). O tema era demasiado sumarento e pro­pício a piadas para passarmos ao lado. Não era possível ignorar o que lhe tinha acontecido. Mas, com o tempo, e vendo nós como aquilo o tinha traumatizado, lá acabá­mos por arrumar o assunto num canto da cabeça, com o sinal de «não mexer».

O Pedro tinha a mania de que era fresco na ca­ma. Tinha-se em boa consideração e achava que, como tinha um palmo de cara e – mais importante – muita lá­bia, conseguia engatar a torto e a direito. Além disso, era um daqueles irritantes viciados em suor de toalhas de ginásio, vibrava com passadeiras de corrida e fartava-se de tirar fotografias a ele próprio em frente aos espelhos da sala de máquinas (na altura ainda não se chamavam selfies). Durante alguns anos, não lhe conhecemos na­morada. Só alguns engates.

Mas o dia chegou em que aconteceu ao Pedro o que habitualmente acontece aos engatatões cheios de bazófia: encontrou uma mulher à altura dele. Que também se achava a última bolacha do pacote.

terça-feira, 31 de março de 2015

Receber ordens é o mais fácil. Pensar nelas é que custa mais


«Pensaste no jantar?» Não sei como é com vocês, não sei como se passa nas vossas vidas, mas em minha casa, esta é uma das perguntas ouvidas com mais frequência. Normalmente é atirada pela minha mulher, mas, contrariamente ao que o fator repeti­ção poderia levar a crer, raramente é usada como iro­nia e muito poucas vezes serviu para provar um pon­to de vista. É, tanto quanto sei, uma dúvida legítima que ela tem amiúde. Ela quer mesmo saber se eu pen­sei no jantar. Se fui ao frigorífico ver o que há, se pas­sei pela despensa para confirmar o que temos, se abri os tupperwares com restos do dia anterior.

E, é verdade, na maior parte dos casos não pensei no jantar. Não me preocupei em ver com antecedên­cia o que temos e, perante isto, o que podemos improvisar. A coisa não é grave nem viria daí mal ao mundo, mas quando há crianças pequenas – e naquela casa há duas – ter de desenrascar um jantar à última hora em vez de enfiar alguma coisa no micro-ondas pode ser a diferença entre um fim de dia tranquilo ou uma noi­te dos infernos. É que todos os grãos na engrenagem da logística a partir das sete da tarde, com banhos, re­feições, brincadeira, birras, pijamas para vestir e his­tórias para ler podem complicar seriamente a vida de dois adultos nas horas seguintes. Sim, é um facto: o raio da realidade com bebés e olheiras pode ter mo­mentos de pouco glamour. Mas são escolhas.

domingo, 15 de março de 2015

Pior do que um mentiroso é um incompetente a mentir



– És parvo. Devias ter mentido.

– Não sou capaz de mentir.

– Não interessa se és capaz ou não. Devias ter mentido.

– Mas como é que não interessa? Se eu não sei mentir, não vou fingir. Não consigo, mesmo.

– Mas não consegues porque vai contra os teus prin­cípios? Porque és um tipo muito correto e justo e hon­rado e transparente e rebeubéu pardais ao ninho? Ou não consegues porque não sabes? É que são coisas di­ferentes.

– Não consigo porque sou mau nisso. Sou logo caçado. Também não gosto muito, é verdade. Mas não sou um moralista nem quero medalhas de bom rapaz. O proble­ma é que me topam logo. E meto os pés pelas mãos e fa­ço figura de parvo.

– Pois, isso é um problema. Um tipo que não sabe mentir é um problema. As mulheres não gostam disso.

Se é para enganar, perguntem à vossa mulher como é que se faz



Na sequência do naufrágio do navio de cruzei­ro, todos os passageiros e tripulantes morreram. Todos, menos dois. Agarrados a alguns destroços, deram à costa numa ilha deserta. Um homem e uma mulher. Ele, por­tuguês, de Macedo de Cavaleiros. Chamava-se Carlos. Carlos Antunes. Ela, alemã, natural de Rheinberg, per­to de Düsseldorf. Chamava-se Claudia. Claudia Schiffer.

Procuraram refúgio, calor, alimento, forma de se manter vivos. E, confinados a um pedaço de terra cerca­do de água, aliaram-se na luta pela sobrevivência. Uma coisa leva à outra, tornaram-se amantes. Sem concor­rência e sem muito para fazer além de pescar, passavam o dia enrolados. De todo o azar que tinha tido – o homem quase morria afogado –, o bom do Carlos sentia que lhe tinha saído a sorte grande: sozinho numa ilha deser­ta com uma ex-top model só para ele. Quando quisesse. Na areia, na cabana, dentro de água, onde calhasse.