quinta-feira, 21 de maio de 2015

Um ano depois, isto é melhor do que eu pensava



São onze e meia. Lembrei-me agora do dia que é hoje e deu-me uma vontade de te escrever. Se bem te conheço, como não ligas puto a datas, também não deves ter memorizado esta. Mas eu lembro-me: 21 de maio de 2014. Faz hoje um ano que saí de casa. Acon­teceram muitas coisas entretanto. Arranjei uma casa nova, depois arranjei outra. Mudei de carro. Não mu­dei de emprego, como queria, mas acabei por receber a promoção que de que andava atrás há tanto tempo. Menos mal. Fiz duas viagens. Fui a Roma e voltei ao Brasil. Tu dizias que não tinhas pachorra para férias no Nordeste e por isso não te apetecia voltar ao Brasil. Lembrei-me disso quando estava lá. Lembrei-me de ti. Não eram saudades. Era alívio, por não te ter a cha­tear-me, à procura de algum defeito no hotel. E co­mo ainda somos amigos no Facebook, vi que por es­ses dias andavas a queixar-te do frio. Que irónico. Tu a dizeres mal da tua vida, com frio, e eu a beber água de coco do outro lado do mar, com os pés de molho, a agradecer as voltas da vida.

No meio de tantas coisas que aconteceram, houve uma que não mudou: continuo a ter um gran­de desprezo por ti. Pensava que, ao fim de uns tempos, ia acabar por passar por aquelas fases todas do luto. O luto de uma relação. A raiva, a tristeza, a incompreen­são, a aceitação… Isso tudo de que falam os livros, a in­ternet e o meu psicólogo. Sim, comecei a fazer terapia. Para poder voltar a gostar de mim. Custou, mas con­segui. Mas, ao contrário do que toda a gente diz (até esse psicólogo com quem gostava tan­to de falar mal de ti – agora já não és assunto), ainda não cheguei à aceitação. E isso não me cha­teia. Gosto da ideia de te des­prezar. De pensar que me és (quase) indiferente.

terça-feira, 19 de maio de 2015

(Quase) tudo o que é desigual entre homens e mulheres cabe numa fralda



Preparar a cama. Preparar tudo o que será necessário ter à mão. Tirar as calças. E as meias. Deitar com cuidado. Abrir as molas do body. Levantá-lo, na direção da barriga e das costas, para garantir que não se irá sujar. Abrir um adesivo. Abrir o outro. Levantar devagarinho. Espreitar. Mudar uma fralda é uma das mais básicas tarefas para cuidar de um bebé. O banho, ainda percebo que faça alguma confusão, sobretudo nos primeiros dias. A refeição, consigo entender que não é coisa fácil, sobretudo quando eles rejeitam a sopa ou a papa. Cortar as unhas pode ser um pesadelo de nervos, tal o medo de um deslize para os dedos pequenitos. E acalmar as cólicas é, por vezes, um desafio aos limites da paciência (e de tolerância a decibéis). Mas a fralda, senhores…

Colocar no primeiro parágrafo uma mudança de fralda talvez afugente os leitores avessos a conversas de bebés. Mas, para os outros, o tema pode ser controverso na gestão de uma relação com filhos. Basta pensarem que o gesto tem de ser repetido pelo menos seis vezes por dia (oito, nos primeiros tempos, três, quando começam a controlar a coisa, perto dos dois anos e meio). Se isso recair sempre sobre o mesmo elemento do casal – normalmente a mãe – ou se for sempre feito em jeito de frete, podem crer que têm aí um problema. Um problema grave de desigualdade, que não ocorre apenas em vossa casa nem começou com vocês.

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Um bâton de cada vez. Até à vitória final


Durante anos foi um objetivo (ou, vá lá, um ponto a favor) de cada vez que procurava casa: queria uma que tivesse casa de banho com janela. Agrada-me a ideia de ter luz natural num cubículo pequeno onde passamos tanto tempo – sobretudo depois de ter filhos, já que é a única divisão onde ainda se consegue ter alguns minutos de aparente sossego. Hoje, que vivo numa casa que tem WC com janela, tenho a fasquia um pouco mais elevada: na próxima, quero uma abertura para o exterior E uma bancada em condições. Daquelas grandes, onde cabem muitos frascos e embalagens, capaz de acumular pó e pedaços de sabão seco, mas suficientemente extensa para caberem ali os essenciais de higiene e beleza da minha mulher. Pode ser que assim ela não continue o processo de colonização das minhas prateleiras.

domingo, 19 de abril de 2015

Vai uma corrida? Mas ponham no Facebook. Se não, as calorias gastas não contam



– Vou começar a correr.

– Tu? Mas tu detestas correr.

– Não detesto. Não gosto muito, mas não detesto.

– Detestas, detestas. Ainda há dias disseste isso à tua irmã, que eu ouvi. Estavas com ela ao telefone a dizer que não percebias como é que ela corria todos os dias.

– Mas tu é que sabes o que eu detesto?

– Eu lembro-me de te ouvir. E não foi por o dizeres na semana passada. Nunca gostaste de fazer exercício.

– Eu fazia ginástica na escola.

– Pois fazias. E detestavas. Eu sou teu marido, sei es­tas coisas, lembras-te?

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Faz-me rir. De todas as coisas que me podes fazer, faz-me rir



De todas as coisas que o criador resolveu aperfei­çoar depois de concluir com sucesso o primeiro modelo de ser humano, o sentido de humor deve ter sido aque­la que mais o divertiu. A sério, ponham-se na pele dele. Perdão, d’Ele. De repente, vocês têm o poder de fazer al­guém (só esta ideia já provoca arrepios) à vossa imagem e semelhança – isto é que é capaz de já ser poder a mais para alguns de vocês, mas trata-se de um exercício de imaginação, por isso embebedem-se à vontade com a ideia. Não contentes com isso, vocês ainda podem deci­dir qual o tipo de coisas com que aquela criatura se vai rir. Se será um tipo que precisa de uma piada ao estilo Benny Hill – grandes decotes, uma mama a saltar por fo­ra e um homem a fazer caretas e a revirar os olhos – ou se será alguém que gosta de se divertir a explorar as peque­nas fraquezas humanas, como o Larry David. Irá prefe­rir o humor negro ou delirará com sketches dos Monty Python? Achará piada a programas de apanhados ou torcerá o nariz aos limites do bom gosto com um carto­on ofensivo para alguém (não é supos­to haver limites nenhuns para a liberdade nos cartoons, mas isso são outros duzentos).

Mas, mais importante do que as coisas que vocês, hipoteticamente, poderiam decidir que iria desenca­dear uma gargalhada no vosso pequeno humano, se­riam as gargalhadas que ele próprio seria capaz de pro­vocar nos outros. E aí já seria precisa uma afinação mais precisa. Aí já seria necessário olhar com mais cuidado pa­ra o que tinham em mãos. É que isso é um poder grande. Muito grande. Porque se prende diretamente com um gatilho poderoso para o nosso bem-estar: a capacidade de usar o humor como ferramenta de engate. Mais do que moldar um homem com um órgão sexual de proporções bíbli­cas, capaz de horas e horas de prazer ininterrupto (medo!) ou criar uma mulher com uma cara de anjo e umas curvas de fazer parar o trânsito, escolher o tipo de humor que ele ou ela teriam como ferramenta para che­gar ao coração e à atenção de outras pessoas é um poder extraordinário. Mais: é O poder supremo. 

terça-feira, 14 de abril de 2015

Prometo amar-te, respeitar-te e oferecer-te um micro-ondas


– Mas gostas mesmo?

– Gosto.

– Não pareces muito satisfeita.

– Gosto. A sério. Já te tinha dito que devíamos comprar uma.

– Pois. Foi o que me lembrei. E é o novo modelo. Não sei bem qual é a diferença para o outro, mas a senhora diz que esta tem mais umas cenas aqui e que é mais fácil pa­ra lavar.

– Não sei, vou ver depois. Amanhã olho para isto com calma e vejo as instruções

– Amanhã? Não vais abrir o teu presente hoje?

– Já abri. Já vi o que é. Não vale a pena tirar da caixa, fica aqui tudo espalhado. Amanhã trato disso, arranjo espa­ço na bancada e vejo os papéis todos.

– Agora é que estou mesmo com a ideia de que não gos­taste. Isto não é nada teu, não abrir as coisas.

– Gostei, gostei. Obrigado.

– O que é que se passa?

– Nada, não se passa nada.

terça-feira, 7 de abril de 2015

Se me encontrares, bates-me. Se não me encontrares, estou no roupeiro



Durante alguns anos, o tema foi tabu. Proibi­do. Zona interdita a comentários, risinhos e piscadelas de olho. Nada podia ser dito sobre aquele episódio. Ao início foi difícil respeitar a vontade do Pedro (ele não se chama Pedro, mas vamos respeitar, ao menos, o anoni­mato do rapaz). O tema era demasiado sumarento e pro­pício a piadas para passarmos ao lado. Não era possível ignorar o que lhe tinha acontecido. Mas, com o tempo, e vendo nós como aquilo o tinha traumatizado, lá acabá­mos por arrumar o assunto num canto da cabeça, com o sinal de «não mexer».

O Pedro tinha a mania de que era fresco na ca­ma. Tinha-se em boa consideração e achava que, como tinha um palmo de cara e – mais importante – muita lá­bia, conseguia engatar a torto e a direito. Além disso, era um daqueles irritantes viciados em suor de toalhas de ginásio, vibrava com passadeiras de corrida e fartava-se de tirar fotografias a ele próprio em frente aos espelhos da sala de máquinas (na altura ainda não se chamavam selfies). Durante alguns anos, não lhe conhecemos na­morada. Só alguns engates.

Mas o dia chegou em que aconteceu ao Pedro o que habitualmente acontece aos engatatões cheios de bazófia: encontrou uma mulher à altura dele. Que também se achava a última bolacha do pacote.